quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mais um ano...

 


Quinze anos é muito tempo, parafraseando Paulo de Carvalho que, na sua canção, refere que dez anos é muito tempo. Ou talvez não, no caso do Xaile de Seda. Comigo tive a vossa amável companhia, com palavras bonitas e generosas. Neste tempo que passou depressa, muito tenho a agradecer: as vossas visitas, os vossos comentários, que vieram completar com mais informações o que faltava. 

Como sabeis, o Xaile de Seda é um blog que prestigia a palavra dos outros, o mesmo é dizer que procuro publicitar poemas e prosas que couberam na inspiração de pessoas que têm a infinita arte de escrever. Também se trata de publicar música de que gosto, esperando que também vos tenha agradado, o que fiz com imenso prazer.

Assim, cumpri um pouco o que Voltaire teria querido dizer no final de Candide: "Il faut cultiver notre jardin". 

Claro que essa expressão não poderá ser interpretado à letra, tout court, visto que o livro seria escrito depois do terramoto de Lisboa, 1755, com muita ironia e em oposição ao fatalismo de Leibniz. Segundo este todas as desgraças que acontecem neste nosso mundo têm uma razão de ser. É o optimismo no seu cúmulo, na sua melhor ou pior versão.

Desta feita, ouve-se Monsieur Pangloss dizer: Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. 

E enquanto temos a ilusão de que estamos no melhor dos mundos, viajando pelo século XVIII, trago esta canção de Salvatore Cutugno - l'italiano vero, que nada tem a ver com os quinze anos deste blog, 

mas sim com a CHICA e o MARIDO que fizeram anos de casados há poucos dias. Assim, dedico-lhes esta canção que, como diz a própria letra:

Lasciatemi Cantare:


Toto Cutugno

Lasciatemi Cantare



Envio-vos abraços apertados, ao mesmo tempo que vos anuncio que vou iniciar uma Pausa, pequenina ou longa ainda não sei.

Dias felizes vos desejo.

Olinda


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imagens - pixabay


domingo, 18 de janeiro de 2026

O desassossego do Mar




Poema do Mar

O drama do Mar,
O desassossego do Mar,
    sempre
    sempre
    dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...

O Mar!
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
histórias da baleia que uma vez virou a canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros...

O Mar! 
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

   Este convite de toda a hora
   que o Mar nos faz para a evasão!
   Este desespero de querer partir
   e ter que ficar!

Jorge Barbosa

(Ambiente, 1941)


Jorge Vera-Cruz Barbosa ( 1902 -1971) foi um escritor cabo–verdiano.
Colaborou em várias revistas e jornais portugueses e cabo–verdianos e ainda na revista luso-brasileira Atlântico.. Com a publicação do seu primeiro livro, Arquipélago em 1935 foi um marco para o nascimento da poesia cabo-verdiana...
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BANA

Mar é morada de sodade




Bom domingo, amigos.

Abraços

Olinda




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imagem: pixabay
Ver Claridade
Jorge Barbosa - características essenciais - aqui


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Mamãe-Terra




MAMÃE

Mamãe-Terra,
venho rezar uma oração ao pé de ti.
Teu filho vem dirigir suas súplicas a Deus Nossenhor
por ele
por ti
pelos outros teus filhos - espalhados
na superfície cinzenta do teu ventre mártir,
Mamãe-Terra

Mamãezinha,
dorme, dorme,
mas, pela Virgem Nossa Senhora,
quando te acordares
não te zangues comigo
e com os teus meninos
que se alimentam da ternura das tuas entranhas.

Mamãezinha,
eu queria dizer minha oração
mas não posso;
minha oração adormece
nos meus olhos, que choram a tua dor
de nos quereres alimentar
e não poderes.

Mamãe-Terra,
Disseram-me que tu morreste
e foste sepultada numa mortalha de chuva.
O que eu chorei!

Sinto sempre tão presente no meu coração
o teu gesto de te levantares
buscando o pão para as nossas bocas de criança
e nos dirigires a consolança das tuas palavras
sempre animadoras..

Eu procurei o teu túmulo
e não o encontrei.
E depois,
na minha dor de filho angustiado,
numa migalha de terra
no meio do mar.

Embarquei num veleiro
e fui navegando, navegando...

Não morreste, não Mamãezinha?
Estás apenas adormecida
para amanhã te levantares.
Amanhã, quando saíres,
eu pegarei o balaio
e irei atrás de ti,
e tu sorrirás para todo o povo
que vier pedir-te a bênção.
Tu não deitarás a bênção.
E eu me alimentarei do teu imenso carinho...

Mamãezinha, afasta-te um bocadinho
e deixa o teu filho adormecer ao pé de ti...


(In Claridade, n.2,1936)


Baltasar Lopes da Silva (1907-1989) foi um escritor, poeta e linguista de Cabo Verde que escreveu em português e em crioulo. Com Jorge Barbosa foi um dos fundadores da revista Claridade. Em alguns dos seus poemas usou o pseudónimo Osvaldo Alcântara. Encontra-se colaboração da sua autoria na revista luso-brasileira Atlântico.

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Humbertona - 
Rapsódia de Mornas







Continuação de boa semana.
Abraços
Olinda

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Imagem: pxabay
Liberdade, Palavra e Futuro - Manuel Ribeiro Semedo - aqui
Homenagem a Humbertona - aqui